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sábado, 24 de julho de 2010


SÓCRATES

Seu nome em grego é Sokrátes. Sua cidade natal foi Atenas, no ano de 469 a.C., tendo nascido filho de um escultor, de nome Sofronisco e de uma parteira, Fenarete.

Fisicamente, era considerado feio, com seu nariz achatado, olhos esbugalhados, uma calva enorme, rosto pequeno, estômago saliente e uma longa barba crespa.

Casou-se com Xantipa e teve três filhos, mas dizem que trabalhava apenas o necessário para que a família não viesse a perecer à fome.

Tendo sido proclamado pelo oráculo de Delfos, como o mais sábio dos homens, Sócrates passou a se incumbir de converter os seus concidadãos à sabedoria e à virtude. Considerava-se protegido por um "daimon", gênio, demônio, espírito, cuja voz, afirmava, desde a infância, o aconselhava a se afastar do mal.

Não tinha propriamente uma escola, mas um círculo de familiares, discípulos com os quais se encontrava, de preferência, no ginásio do Liceu. Em verdade, onde quer que se encontrasse, na casa de amigos, no ginásio, na praça pública, interrogava os seus interlocutores a respeito das coisas que, por hipótese, deveriam saber, fossem eles um adolescente, um escravo, um futuro político, um militar, uma cortesã ou sofistas.

Desta forma, conclui que eles não sabem o que julgam saber e, o que é mais grave, não sabem que não sabem. Por sua vez, ele, Sócrates, não sabe, mas sabe que não sabe.

Era considerado um homem corajoso e de muita resistência física. Todos se recordavam de como ele, sozinho, enfrentara a histeria coletiva que se seguira à batalha naval de Arginusas, quando dez generais foram condenados à morte por não terem salvo soldados que estavam a se afogar.

Ele ensinava que a boa conduta era aquela controlada pelo espírito e que as virtudes consistiam na predominância da razão sobre os sentimentos. Introduziu a idéia de definir os termos, pois, "antes de se começar a falar, era preciso saber sobre o que é que se estava falando".

Para Sócrates, a virtude supõe o conhecimento racional do bem. Para fazer o bem, basta, portanto, conhecê-lo. Todos os homens procuram a felicidade, quer dizer, o bem, e o vício não passa de ignorância, pois ninguém pode fazer o mal voluntariamente.

Foi denunciado como subversivo, por não acreditar nos deuses da cidade, e também corruptor da mocidade. Não se sabe exatamente o que os seus acusadores pretendiam dizer, mas o certo é que os moços o amavam e o seguiam. O convite a pensar por si mesmos, atraía os jovens e talvez fosse isso que temessem pais e políticos. Ocorreu também que um dos seus discípulos, de nome Alcibíades, durante a guerra com Esparta tinha se passado para o lado do inimigo. Embora a culpa não fosse de Sócrates, pois a decisão fora pessoal, Atenas buscava culpados.

Foi julgado por um tribunal popular de 501 cidadãos e condenado à morte. Poderia ter recorrido da sentença e, com certeza, receber uma pena mais branda. Entretanto, racional como era, afirmou aos discípulos que o visitaram na prisão:
"Uma das coisas em que acredito é no reinado da lei. Bom cidadão, como eu tantas vezes vos tenho dito, é aquele que obedece às leis de sua cidade. As leis de Atenas condenaram-me à morte, e a inferência lógica é que, como bom cidadão, eu deva morrer."

É Platão quem descreve a morte do seu mestre, no diálogo Fédon. Sócrates passou esta noite a discutir filosofia com seus jovens amigos. O tema, "Haverá uma outra vida depois da morte?"

Embora fosse morrer em poucas horas, discutiu sem paixão sobre as probabilidades de uma vida futura, ouvindo mesmo as objeções dos discípulos que eram contrários à sua própria opinião.

Quando o carcereiro lhe apresentou a taça de veneno, em tom calmo e prático, Sócrates lhe disse:
"Agora, você que entende dessas coisas, diga-me o que fazer."
"Beba a cicuta, depois levante-se e passeie até sentir as pernas pesadas, respondeu o carcereiro. Então, deite-se, e o torpor subirá para o coração."

Sócrates a tudo obedeceu. Como os amigos chorassem e soluçassem muito, ele os censurou. Seu último pensamento foi de uma pequena dívida que havia esquecido. Afastou a coberta que lhe haviam colocado sobre o rosto e pediu:
"Crito, devo um galo a Esculápio...Providencie para que a dívida seja paga."

Fechou os olhos e cobriu novamente o rosto. Quando Crito tornou a lhe indagar se tinha outras recomendações a fazer, ele não mais respondeu. Havia penetrado o mundo dos espíritos. Era o ano 39 a.C.

Sócrates nada escreveu e sua doutrina somente nos chegou pelos escritos de seu discípulo Platão. Ambos, mestre e discípulo, são considerados precursores da idéia cristã e do espiritismo, tendo o Codificador dedicado as páginas da introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo para esse detalhamento.

O nome de Sócrates se encontra especialmente em Prolegômenos de O livro dos espíritos, logo após o de O espírito da verdade, seguido de Platão. Ainda encontramos seus comentários aos itens 197 e 198 de O livro dos médiuns, no capítulo que trata dos médiuns especiais, demonstrando que o trabalhador verdadeiro não cessa suas atividades, embora a morte do corpo físico e de que, afinal, somos verdadeiramente uma só e única família universal: espíritos e homens, envidando esforços para o atingimento da Perfeição.

LÉON DENIS


Léon Denis nasceu em primeiro de Janeiro de 1846 em Foug, pequena localidade de Toul, na França. Desencarnou, cego e doente, em 18 de Abril de 1927, na cidade de Tours, também na França onde viveu a maior parte de sua vida. Era de origem Celta (Gaulês), grupo de antigos povos da Europa, de antes de Cristo.

Era profundamente conhecedor da cultura celta e, como historiador, escreveu obras sobre este assunto, destancando-se "O Gênio Celta e o Mundo Invisível" e a vida de "Joana D´Arc".

Filho único de Joseph Denis, pedreiro pobre, depois carteiro e ferroviário e de Anne-Lucie Liouville, camponesa. Só fez o curso primário, mas lia muito e, graças ao seu talento e às leituras, tornou-se um homem culto e erudito. Foi telegrafista ferroviário e contador comercial. Em Tours, trabalhou como operário braçal numa cerâmica e freqüentou uma escola noturna para aprimorar seus conhecimentos gerais.

Aos 18 anos adquiriu, por curiosidade, "O Livro dos Espíritos", que começou a ler escondido da mãe (que era católica). A mãe descobre o livro e também o lê. Ambos tornam-se espíritas!

Passou a trabalhar numa firma que comerciava com couros, onde se ocupava com a correspondência e contabilidade, passando depois a vendedor - viajante. Como viajante comercial pode visitar e proferir conferências espíritas em várias localidades da França, Bélgica, Suíça, Algéria e Tunísia (na África), Ilha de Córsega, Itália, etc. Manteve a sua profissão de viajante até se aposentar. Filho amoroso, de todos os lugares onde ia, escrevia sempre cartas ou postais à sua mãe, com quem morava. Nunca se casou, por ter saúde fraca e temer desamparar a família.

Conheceu Allan Kardec por ocasião da visita do Codificador à cidade de Tours, onde fora pronunciar uma conferência sobre Espiritismo. Nessa ocasião foi negado permissão para a reunião em um salão que tinha sido alugado para a conferência. Cerca de 300 pessoas tiveram, então, que ouvir o conferencista, em pé, no jardim da casa particular de um espírita! Com 21 anos revê mais duas vezes Allan Kardec; uma vez em Paris e outra em Bonneval. Tornou-se secretário do Grupo Espírita de Tours. Estuda e pesquisa o Espiritismo.

Em 1869, com 23 anos, torna-se Orador da Loja Maçônica dos Demófilos (nome de origem grega, significando Amigos do Povo).
1870 - Guerra Franco-Prussiana. Léon Denis está com 24 anos e serve como Sargento na 1° Leigião da Guarda. Depois passa a Sub-Tenente, Tenente e Major-Ajudante. Vem a Paz.

Foi dedicado colaborador da Liga de Ensino, entidade que buscava criar escolas e bibliotecas para o povo. Certa vez seus amigos quiseram fazê-lo Deputado. Recusou-se.

Sua missão era trabalhar pelo Espiritismo. Léon Denis era médium Escrevente, Vidente e de Intuição. Recordava-se de três de suas encarnações anteriores, na Gália. Sua protetora espiritual foi o espírito que se identificou como Sorela, mais tarde revelando ser Joana D´Arc. Um de seus Guias foi Jerônimo de Praga (Monge Pré-Reformador, 1416, queimado vivo pela igreja de Constança, Alemanha); é também o Espírito Azul (era visto como uma névoa azulada).

Com o tempo Léon Denis tornou-se um famoso orador espírita e passa a defender e esclarecer a Doutrina Espírita em brilhantes conferências. É considerado o continuador e consolidador da obra de Allan Kardec. É tido como o Apóstolo do Espiritismo e reconhecido como Filósofo, Orador, Historiador, Escritor primoroso, autor de 15 obras de inestimável valor doutrinário.

Quando ficou cego tratou de aprender a escrever em Braille, para tomar notas e registrar idéias e pensamentos. Como não podia mais ler nem escrever, passou a utilizar os serviços de secretárias, a quem ditava cartas e seus últimos livros.

Foi Presidente de Honra da União Espírita Francesa. Membro honorário da Federação Espírita Internacional. Presidente do Congresso Espírita Internacional realizado em Paris - 1925.

Viveu 81 anos, 3 meses e 11 dias, legando, pelo seu trabalho, suas conferências, suas obras, notável exemplo de dedicação e doação ao Espiritismo.

EDGARD ARMOND


No dia 29 de novembro de 1982, às 4h30, no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, o comandante Edgard Armond retornou à pátria espiritual. Estava com 88 anos completos. Seu corpo foi sepultado no Cemitério de Vila Mariana.

Do valoroso companheiro que partiu podemos dizer que por mais de 30 anos o movimento espírita brasileiro viveu impulsionado pelo seu dinamismo. Foi ele que sistematizou o estudo da Doutrina em termos evangélicos e estabeleceu cursos para auxiliar o desenvolvimento de médiuns. Foi, também, pioneiro do movimento de unificação, tendo lançado a idéia de criação da USE — União das Sociedades Espíritas. A Federação Espírita do Estado de São Paulo ganhou vida em suas mãos e, por 30 anos, cresceu sob seus cuidados; em 1973, a Aliança Espírita Evangélica nasceu sob sua inspiração.

Edgard Armond foi, sem dúvida nenhuma, o continuador da obra de Bezerra de Menezes, no tocante à difusão e vivência do Espiritismo em seu aspecto religioso.

RESUMO BIOGRÁFICO

Em 1974, o companheiro Jacques André Conchon, então diretor geral da Aliança Espírita Evangélica, recebeu das mãos do comandante Edgard Armond uma seqüência de folhas datilografadas contendo sua autobiografia. E é para esta autobiografia que “O Trevo” abre este mês todas as suas páginas

Identidade

Filho de Henrique Ferreira Armond (de Barbacena) e de Leonor Pereira de Souza Armond (de Formiga), ambos de Minas Gerais.

Nasceu a 14 de junho de 1894, em Guaratinguetá, Estado de São Paulo.

Origem do nome de família

Fidalgos franceses huguenotes, expatriados durante as perseguições religiosas movidas por Catarina de Médicis, na França, a partir da Noite de São Bartolomeu, em Paris, em 1519, e que se estenderam por todo o país até 1582.

Refugiaram-se em Amsterdã, na Holanda, dedicando-se ao comércio, transferindo-se depois para a Ilha da Madeira e dali para o Brasil, em meados de 1700, fixando-se em uma sesmaria de terras recebidas do governo português, entre Juiz de Fora e Barbacena, onde construíram a primitiva Fazenda dos Moinhos.

Ascendentes

Por parte de mãe: comendador Manoel Teixeira de Magalhães Leite, de Formiga, transferido para Guaratinguetá em meados do século passado; e José Antonio Pereira de Souza, médico, falecido em 1904, atualmente dirigindo uma colônia de desencarnados e cooperando na Fraternidade dos Irmãos Humildes, no Plano Espiritual.

Por parte de pai: Honório Augusto Ferreira Armond, Barão de Pitangui — do ramo de Barbacena, e Camilo Maria Ferreira Armond, Conde de Prados — astrônomo e médico de Pedro II, do ramo de Juiz de Fora.

Em Guaratinguetá fez os cursos primário e secundário, transferindo-se para São Paulo em 1912, e no mesmo ano, para o Rio de Janeiro, ingressando no comércio e, ao mesmo tempo, prosseguindo seus estudos.

Em 1914, ao romper a Grande Guerra, voltou para São Paulo e alistou-se na Força Pública do Estado, como praça e, dois anos depois, ingressou na Escola de Oficiais, como 1º sargento, saindo aspirante em 1918, casando-se no ano seguinte com Nancy de Menezes, filha do Marechal do Exército Manoel Felix de Menezes.

Comandou destacamento em Santos, São João da Boa Vista e Amparo, fixando-se, por fim, na Capital. Como 2º tenente, organizou e foi nomeado diretor da Biblioteca da Força Pública, sendo, ao mesmo tempo, nomeado professor de História, Geografia e Geometria na referida Escola.

Em 1923 matriculou-se na Escola de Farmácia e Odontologia do Estado, diplomando-se em 1926.

Em 1922 foi um dos chefes, no Estado, da revolução que malogrou no país e que terminou com a rendição do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Como 1º tenente, na revolução de 1924, combateu na Capital (São Paulo) e, em seguida, seguiu para o Paraná e Santa Catarina, até o fim da campanha, permanecendo com a tropa de ocupação nas fronteiras do Paraguai e Argentina, até fins de 1925.

Na Revolução de 1930, como capitão, serviu no Estado Maior, voltando em seguida ao magistério militar na Escola de Oficiais e no Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais, lecionando administração e legislação militar.

Em 1931 fez estudos e apresentou projeto de construção de uma estrada de rodagem, de Paraibuna a São Sebastião, visando ligar o litoral norte, abandonado e deserto, ao Planalto e ao sul de Minas; não havendo recursos disponíveis, utilizou praças da própria Força, prestes a serem desincorporados; como não se tratava de serviço próprio da corporação, o projeto sofreu grandes embaraços, mas foi, afinal, aprovado, cabendo-lhe a direção pessoal desse empreendimento, sem contar, entretanto, com os indispensáveis recursos materiais.

Abrindo estrada

Em abril de 1931 iniciou essa construção no Alto da Serra de Caraguatatuba, com 15 soldados e ali trabalhou até o rompimento da revolução constitucionalista de 1932, quando assumiu o comando daquele litoral, das divisas do Estado do Rio até Santos, controlando também o movimento da Esquadra Nacional que mantinha vários vasos de guerra na Ilha de São Sebastião.
Organizou tropas em Paraibuna e Caraguatatuba e comandou-as, logo depois, no sul do Estado, nas cidades de Itaí, Taquari e Avaré e, após a cessação da luta, foi nomeado Chefe de Polícia do Estado, no período de transição que se seguiu, passando em seguida a compor a Casa Militar do governador militar do Estado, General Waldomiro Lima.

Sessenta dias depois pediu demissão da referida função para prosseguir na construção da rodovia a que se propusera, no litoral, que se encontrava apenas iniciada, sendo então nomeado comandante de um Batalhão de Sapadores, criado especialmente para isso, tarefa essa que exerceu até agosto de 1934, quando interrompeu a construção por ordem superior, entregando-a ao DER, órgão competente do governo. Já em fase adiantada e dando, mesmo, trânsito a veículos carroçáveis, de Paraibuna até Caraguatatuba..

Essa iniciativa de caráter mais que particular, realizada com imensos sacrifícios e dificuldades por carência de recursos, antecipou de 40 anos o progresso dessa região, beneficiando as cidades de Paraibuna, Natividade, Salesópolis, Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião e Ilha Bela.

Regressando em 1934, assumiu o subcomando da Escola de Oficiais; em seguida organizou a Inspetoria Administrativa da Força e, por conveniência organizativa, fez concurso para o quadro de Administração da Força Pública, sendo classificado como tenente-coronel, na chefia do Serviço de Intendência e Transporte, onde permaneceu até 1938, quando sofreu acidente grave, permanecendo, porém, nessa chefia até 1939, quando foi transferido para o Q.G.; solicitando reforma. Foi julgado inválido para o serviço militar, abandonando o serviço em princípios de 1940.

Nesse último período escreveu: “Tratado de Topografia Ligeira” (dois volumes) e “Guerra Cisplatina” (Discursos).

Após este resumo de atividades profissionais, passamos agora às de natureza espiritual, que são as de maior interesse e que justificam o alinhamento destes dados biográficos.

Em abril de 1938, passando pela praça João Mendes, foi abordado por um negro pedreiro, que lhe fizera, há tempos, um pequeno serviço em casa e que se apresentou dizendo ser freqüentador de um Centro Espírita de Vila Mariana e recebera a incumbência de procurá-lo e transmitir-lhe um recado, segundo o qual, em junho do referido ano, seria vítima de um sério acidente.

Não deu importância ao aviso, mas nesse período de tempo, sofreu dois acidentes de carro, ligeiros, dos quais se livrou sem maiores conseqüências, até que, no dia 28 de junho, dirigindo seu carro oficial, teve um encontro com um caminhão de água da Prefeitura, no Parque D. Pedro II, quebrando os dois joelhos, além de outros ferimentos de menor importância.

No dia seguinte, hospitalizado e ainda em estado de choque, foi procurado por duas pessoas: o motorista do caminhão que vinha pedir sua proteção para não perder o emprego e a sua carta (de habilitação), pedido esse que atendeu; e o pedreiro negro que informava que o que aconteceu fora para poder trabalhar para o Espiritismo.

Após várias cirurgias e tratamentos custosos, ficou quase sem poder andar durante seis meses, passando, em seguida, a usar muletas, com grande redução de movimentos.

Solicitou então reforma do serviço, que foi negada por não ter tempo legal de serviço ativo e poderem ainda ser tentados outros tratamentos. Como insistisse, obteve um ano de afastamento e, em seguida, a reforma solicitada.

Resumo de antecedentes doutrinários

Conhecia bem o espiritualismo em geral.

Em 1910, na cidade natal, iniciou estudos sobre religiões e filosofias, demorando-se mais nos conhecimentos orientais, mais ricos de ensinamentos e de tradições.

Em 1921, comandando na cidade de Amparo, entrou para a Maçonaria, para conhecimento desse setor tradicional, deixando de freqüentá-la alguns anos depois, no grau de mestre.

Regressando à capital, fez contatos pessoais com líderes esoteristas, ocultistas e espíritas, entre outros Krishnamurti, Krum Heler, Jenerajadasa, Raul Silva (sobrinho de Batuíra) e o famoso médium Mirabelli, então em franco destaque no setor de efeitos físicos.

Dessa data até 1935, os acontecimentos políticos do país absorveram-no nas funções militares no Estado e fora dele.

Em 1936 concorreu a formar, a convite de Canuto Abreu, um grupo de estudos e praticagens espirituais, que funcionava na residência do referido Canuto, e do qual faziam parte, além de outros não lembrados, o dr. C.G.S. Shalders e Antonio Carlos Cardoso, ambos diretores da Escola Politécnica, tendo oportunidade de trabalhar com o velho Ramalho, médium de incorporação, e uma só vez com Linda Gazera, célebre por ter sido médium de efeitos físicos na Europa, com Charles Richet e outros investigadores.

Nessa época visitou vários Centros Espíritas particulares, que se dedicavam exclusivamente a trabalhos de efeitos físicos nos arrabaldes da capital, todos animados pelos resultados notáveis obtidos pela família Prado, em Belém do Pará.

Em 1932, trabalhou também com o famoso médium dr. Luiz Parigot de Souza, do Paraná.

Lera, a essa altura, grande parte da literatura espírita e, um domingo à tarde, anos mais tarde (1939), passando pela rua do Carmo, notou aglomeração à porta da Associação das Classes Laboriosas; indagando, soube que ali estava se realizando uma comemoração de Kardec. Entrou e assistiu parte dela, ali vendo e ouvindo alguns líderes espíritas antigos, como, por exemplo, João Batista Pereira, Lameira de Andrade, Américo Montagnini, estando também presente o médium Chico Xavier, que apenas iniciava sua tarefa mediúnica.

Nessa reunião recebeu um livreto intitulado Palavras do Infinito, de Humberto de Campos, contendo mensagens avulsas de entidades desencarnadas, distribuído pela recém-formada Federação Espírita do Estado de São Paulo. Esse opúsculo aumentou fortemente seu interesse pela Doutrina.

Desde o ano anterior, convalescendo do grave acidente, já estava sendo levado a trabalhos de cooperação espírita, ajudando pessoas a preparar palestras e conferências, que o procuravam em casa, na recém-fundada Federação e em outras casas espíritas.

Em 1939, já estando licenciado para reforma do serviço ativo, passou pela rua Maria Paula, para onde a Federação havia se mudado há poucos dias e, vendo à porta uma placa com o letreiro "Casa dos Espíritas do Brasil", entrou, sendo muito bem recebido, no corredor, pelo confrade João dos Santos, e por este apresentado a outros que ali se encontravam, com os quais palestrou algum tempo, sendo em seguida, convidado a colaborar, convite que aceitou. Dias depois, recebeu um memorando assinado por Américo Montagnini, presidente recém-eleito, comunicando haver sido eleito para o cargo de secretário-geral da Federação.

Resumo das atividades na Federação

Com essa eleição imprevista, fechou-se o círculo de sua integração no Espiritismo, sendo o primeiro ato de uma série de árduos e prolongados trabalhos, somente encerrados quando, por moléstia e velhice, retirou-se da Administração da Casa em 1967.

Como a Federação apenas se instalara naquele prédio, adaptado para sua sede própria, nada encontrou organizado ou em funcionamento regular, estando tudo por fazer, em todos os setores. João Batista Pereira, na eleição então realizada, deixara a presidência para Américo Montagnini e na sigla "Casa do Espíritas do Brasil" se fundiram a Sociedade Espírita São Pedro e São Paulo, até então dirigida pelo Dr. Augusto Militão Pacheco, a Sociedade de Metapsíquica de São Paulo, dirigida pelo dr. Shalders (que era um desdobramento do grupo de estudos de 1936) e a própria Federação.

O maior interesse da época, como já foi dito, eram os fenômenos de efeitos físicos, que não existiam na casa, mas eram assistidos em vários lugares fora, para onde os diretores se trasladavam, às vezes em conjunto.

O primeiro contato mediúnico na Casa foi com o auxílio da médium particular Sra. N. A., esposa de um tabelião da capital, e foi por ela que dr. Bezerra (na ocasião assumindo a direção espiritual da Casa) transmitiu a frase conhecida: "No mundo, o Brasil; no Brasil, esta terra que tem o nome do grande apóstolo; e aqui, esta nossa casa, que será um farol a iluminar a Humanidade".

Naqueles primeiros dias, predominavam por toda parte os efeitos físicos e era marcante a falta de médiuns de confiança para o intercâmbio com o Plano Espiritual Superior; atendendo a um pedido, o Espírito Bezerra de Menezes prometeu sanar a lacuna; passados poucos meses, apareceu na Casa um rapaz moreno escuro, que se dizia graxeiro da Sorocabana, em Assis, e médium de incorporação. Submetido a uma prova, satisfez plenamente. Chamava-se Ary Casadio e ficou combinada sua mudança para a capital, sob a proteção da Casa, onde ficou alojado. Mais tarde, trouxe esposa e filhos pequenos e se dedicou inteiramente aos trabalhos da Casa, prestando durante longo tempo ótimos serviços, tanto internos como externos, em ocasiões solenes e em trabalhos práticos, inclusive depois dos congressos de unificação realizados a partir de 1947, acompanhando, inclusive, como médium, a Caravana da Solidariedade, que viajou por vários estados do País, na propaganda da unificação doutrinária.

Para melhorar as condições da família, arranjou-se-lhe um emprego no Tribunal de Justiça, como escrevente; bem mais tarde formou-se em Direito e abandonou o serviço por conveniência familiar, mudando-se para Osasco.

Essa carência inicial de médiuns já levara antes à formação do Grupo Razin, com sete membros, com o que o intercâmbio melhorou grandemente. Eis os nomes de seus membros primitivos, além do comandante: Raul de Almeida Pereira, funcionário do IBC, médium de incorporação, vidência e audição; José Quintais, mais tarde funcionário do departamento de projetos da Indústria Villares: vidência, audição, psicografia e desenho mediúnico; Rubens Fortes, oficial reformado do Exército: incorporação consciente; Altair Branco, engenheiro; Luiz Verri, cabeleireiro de senhoras: vidência e audição; Paulo Vergueiro Lopes de Leão, pintor, diretor da Escola de Belas Artes.

O Grupo funcionou bem até 1950, data em que foi dissolvido por não haver concordado com a criação da Escola de Aprendizes do Evangelho, exceto dois membros: Paulo Vergueiro e Carlos Jordão, que fora convidado e passou a fazer parte do Grupo nos últimos dois anos.

Durante suas reuniões, duas coisas importantes aconteceram: 1) Manifestou-se pela primeira vez a entidade feminina designada pelo nome de "Castelã", que a partir de então, dispensou ao Grupo valiosíssima colaboração e 12 anos mais tarde, em 1953, pelo médium Divaldo, se identificou como protetora pessoal do comandante, tendo sido, na Itália papal, rainha de Nápoles, em 1481, como Margarida de Médicis. 2) Em uma de suas reuniões, em 1941, surgiu de improviso um médium desconhecido, jovem, que se dizia médico e se chama Élio.

Sua trajetória foi rápida, porém proveitosa. Acercou-se da reunião, no saguão do salão superior, sentou-se ao lado do comandante, ouviu durante alguns momentos uma mensagem que estava sendo transmitida e interrompeu o trabalho, convocando o comandante para uma reunião urgente. Atendendo ao solicitado, a reunião foi decidida e feita na Escola de Belas Artes, à rua Onze de Agosto, onde não haveria interrupções; acompanharam o comandante o engenheiro Altair, Luiz Verri, Lopes de Leão, diretor da Escola, e o médium.

Foi nesta imprevista reunião que foram feitos os primeiros contatos com Ismael, o preposto de Jesus para a condução espiritual do Brasil, o qual, incorporado no referido médium e sob controle do vidente Verri, transmitiu suas primeiras instruções ao comandante, investindo-o na tarefa de dirigir a Federação, estabelecendo a prevalência do Espiritismo Evangélico e construindo, oportunamente, as bases para o êxito desse transcendente empreendimento espiritual.

E como o comandante alegasse que isso era tarefa não para um, mas para muitos, Ismael respondeu dizendo: "Você foi o escolhido e aqui será o chefe; e terá todo nosso apoio enquanto for fiel ao programa que estabelecemos, com toda liberdade para realizá-lo".

O comandante ponderou mais uma vez que estava apenas iniciando a organização da Casa, estando quase que só, ao que Ismael respondeu, abrindo os braços e mostrando ao vidente uma vasta planície a perder-se no horizonte e toda tomada por guerreiros vestidos de armaduras antigas, cobertos de capacetes brilhantes: “Não estarás só; terás o apoio de todos”; e repetindo energicamente a frase e entregando-lhe um montante luminoso (espada antiga manejada com as duas mãos): "Aqui serás o chefe e esta é a espada do comando".

E rematou a entrevista dizendo: “Para te auxiliar nos primeiros dias como conselheiros e elementos de ligação conosco, colocaremos junto a ti três companheiros valorosos. Este, disse apontando o primeiro deles, chamarás Lorenense; este, mostrando o segundo, chamarás Lusitano; e este, apontando o terceiro, chamarás Britânico”.

Nota:

Tanto a multidão de guerreiros como ao auxiliares apontados pertenciam à Fraternidade dos Cruzados. Os dois primeiros se afastaram logo após a formação do primeiro Conselho da Federação e o último, cujo verdadeiro nome era Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra e comandante da terceira cruzada histórica, permanece no posto até hoje, sendo na Federação conhecido simplesmente como Ricardo.

Essa designação do Alto foi confirmada, a partir desse dia, várias vezes, em quase todos os trabalhos da Federação e o comandante deu conhecimento dela à diretoria da Federação e vários auxiliares, na própria ocasião tendo recebido sempre o mais completo apoio de todos os companheiros.

Formação do Conselho

Com este precioso auxílio, que era dado quando necessário ou quando pedido, em reuniões reservadas, inclusive com membros da diretoria representada pelo companheiro Montagnini, a organização da Federação caminhou rapidamente, até a formação do Conselho, em 1941, cuja constituição foi outro ato dramático das atividades iniciais da Casa.

Para essa formação, eram organizadas listas de nomes, que eram submetidas aos assessores em reuniões especiais e ali se examinava a identidade pessoal e as possibilidades de colaboração de cada um, como engenheiros, médicos, magistrados, professores, industriais, militares etc.

A lista era metida na gaveta da secretaria e, no dia seguinte, os escolhidos eram confirmados com uma cruz, e os confirmados iam sendo convocados para uma reunião importante no dia 23 de setembro; na convocação, o comandante assinava como coordenador e dizia que se tratava de importante acontecimento espiritual, do qual os convocados seriam participantes, caso o desejassem.

No dia aprazado, cheios de curiosidade, mas reservados e em silêncio, todos compareceram e o programa foi iniciado da seguinte forma: O comandante, presidente da reunião, tomou a palavra e explicou que a importância do acontecimento era toda espiritual, não estava em coisas exteriores, mas nas conseqüências espirituais que decorriam dela, pelo trabalho a realizar; nada havia de sobrenatural, nem se tratava de promoção de fenômenos físicos, tão em voga naqueles dias, mas sim da abertura de um período histórico-religioso, para maiores realizações de orientação espiritual para o nosso país; com a formação de um Conselho destinado a fornecer e consolidar uma mentalidade verdadeiramente cristã, em todas as suas formas e conseqüências benéficas para as almas humanas.

Nota:

Tudo foi planejado e executado nestes termos, para se poder medir, desde o princípio, a sinceridade e a disposição íntima dos elementos convocados.

Quando parou de falar, era visível um certo desagrado entre os presentes, que se mantinham em expectativa e em silêncio.

Foi anunciada, então, a segunda parte do programa: o dr. Pacheco, veterano dirigente e lutador espírita, assumiria a presidência da reunião, devendo ler e interpretar um texto evangélico à sua escolha, enquanto o comandante, acompanhado de um secretário e um médium de confiança (no caso d. Nair Ferreira), se retirariam para o saguão ao lado, para receber do Plano Espiritual o que fosse do seu agrado ou conveniência transmitir aos presentes.

O secretário escalado foi o dr. Lopes Leão, também escolhido, e escreveu a mensagem dada por Bezerra, na qual este apelava para a boa vontade dos presentes e se referia, em imagens estimuladoras, aos grandiosos trabalhos a realizar, no presente e no futuro, para o bem da humanidade e que exigiam a formação de um Conselho altamente credenciado.

Voltando ao salão, o comandante reassumiu a presidência e mandou o secretário ler a mensagem recebida, finda a qual se iniciou, entre os presentes (não todos), uma troca de exclamações de estranheza, por se limitar a reunião a tão pouco, como diziam, quando esperavam tanto e tão diferente do que estava acontecendo, não havendo nem mesmo algum plano de realizações a ser conhecido, examinado e discutido.

Nesse momento, o médium desconhecido, que, sem ser notado, estava assentado entre os presentes, se levantou em transe e, em voz clara e forte, declarou: “O comandante tem no bolso interno do seu paletó um plano de realizações para ser discutido e votado.”

Levando a mão ao bolso interno, o comandante verificou que realmente ali estava um ligeiro esboço que fizera antes, das primeiras atividades e realizações administrativas após a posse do Conselho e prontificou-se a expô-lo; mas as discussões continuaram, crescendo de vulto, havendo mesmo exclamações em voz alta, de evidente desagrado.

Percebendo o perigo de infiltrações negativas, e para dominar o vozerio, o comandante bateu na mesa, fortemente, e à sua vez, exclamou: “Apelo para o Espírito”, findo o que se sentou em silêncio, concentrando-se.

Então, o mesmo médium desconhecido levantou-se de seu lugar, sempre mediunizado, e firme, ereto, olhos fechados, passando rapidamente por entre as cadeiras, chegou até à mesa de direção e sobre ela abateu-se com violência, de bruços e, nessa posição, com voz forte e enérgica, dirigiu-se novamente aos presentes, dizendo, em resumo, três coisas principais:

1) Depois de tudo o quanto foi dito, ninguém pode ignorar as finalidades desta convocação e o oferecimento que se fez, de oportunidades felizes de servirem a humanidade, testemunhando o Evangelho do Divino Mestre Jesus Cristo.

2) Na situação atual do mundo, que tende a se agravar, esta oportunidade é dádiva preciosa que não deve ser amesquinhada.

3) Se não lhes bastam o que foi oferecido, que usem do seu livre-arbítrio, para aceitar ou recusar. Se não vos bastam, para agir, a espada da fé e o escudo do Evangelho, deixem a carga já, para que permaneçam somente os possuidores de boa vontade, dispostos a colaborar nesse empreendimento de amor e redenção dos nossos semelhantes.”

Fez-se fundo silêncio, dentro do qual o comandante perguntou se alguém desejava usar da palavra e, ninguém se manifestando, declarou que esperava a decisão final de cada um em uma nova reunião, que convocava para daí a cinco dias, à mesma hora e local; e, pronunciando a prece de encerramento, declarou terminada a reunião.

Na sala da secretaria geral, onde muitos se congregaram em seguida, o confrade Pacheco o abraçou, lastimando não ter podido deixar de ser pedra de tropeço, ao que o comandante respondeu que, muito ao contrário, sua colaboração fora útil porque iria ajudar a selecionar, com mais facilidade e segurança, os membros do futuro Conselho.

Na próxima reunião, a 28 de setembro, compareceram dois terços dos primeiros convocados; foi-lhes tomado o compromisso, ante Jesus, de se dedicarem, daí por diante, devotadamente, ao engrandecimento da Federação e do Espiritismo em nosso País. Foram empossados e tomaram conhecimento mais detalhado da organização da Casa e do preparo da gestão administrativa que se iniciava.

Nota:

Esse primeiro conselho chamado de Orientação, a partir de 1944 passou a ser Deliberativo.

Organização da casa

Feito isso, prosseguiram os trabalhos organizativos com a elaboração das primeiras instruções e publicações:

Contribuições ao Estudo da Mediunidade (1942)

Mediunidade de Prova (1943)

Desenvolvimento Mediúnico (maio de 1944)

Missão Social dos Médiuns (junho de 1944)

Esses livretos foram reunidos em um tratado, em 1947(*), com novas bases para o ensino e pratica da mediunidade.

Em 1950 foi publicado um livreto sobre “Passes e Radiações”, visando a novas diretrizes para os trabalhos iniciais de curas, além de vários outros opúsculos e livros, todos destinados ao mesmo fim, no terreno didático, visando à criação de cursos e escolas especializadas, as primeiras medidas tomadas nesse sentido desde a Codificação e que deveriam mudar a feição e o rumo do Espiritismo em nosso Estado, em termos decididamente evangélicos.

Estabilizando-se assim a administração e o funcionamento da Casa, a Secretaria Geral propôs a dissolução do consórcio existente desde 1939, sob o título “Casa dos Espíritas do Brasil”, devendo-se, daí em diante, usar unicamente o nome de Federação Espírita; isso foi feito mediante entendimentos com as diretorias da Sociedade de Metapsíquica e da Associação São Pedro e São Paulo, tendo sido a proposta aceita e executada.

Como conseqüência, a Sociedade de Metapsíquica passou a formar um departamento da Casa com o mesmo nome de Metapsíquico, cujo funcionamento e aparelhagem ficou, inicialmente, a cargo da própria Secretaria Geral, passando a funcionar regularmente em trabalhos de efeitos físicos, considerando-se a conveniência de ainda se conservar esse setor em atividade, para atrair para a Federação numerosos elementos da sociedade interessados nele.

Mais tarde a direção foi transferida para o dr. Shalders, que o exerceu até quando essas atividades foram julgadas dispensáveis, passando-se, em seguida, a utilizar efeitos físicos unicamente em trabalhos de cura espiritual.

Em março de 1944 a Secretaria Geral apresentou projeto de criação de um jornal, sob o título de O Semeador para a difusão das novas diretrizes e movimento geral da Casa.

Nota:

Nesse jornal, o Comandante, até fevereiro de 1972, publicou 425 artigos de colaboração contínua.

O registro do jornal foi feito em nome dele mesmo e não no da Federação, por exigência do Estado Novo revolucionário, e funcionou sob responsabilidade da confreira Marta Cajado de Oliveira, durante alguns meses, prosseguindo a partir daí, até 1967, sob sua própria responsabilidade, quando deixou a função administrativa da Casa, por moléstia.

Nos primeiros tempos foi ele obrigado a usar vários pseudônimos para vencer as dificuldades da colaboração escassa, e garantir a saída regular do jornal, regularidade que, aliás, tem sido mantida rigorosamente até a presente data, graças à excelente direção do confrade Paulo Alves de Godoy.

O primeiro cabeçalho foi desenhado por José Quintais, do antigo Grupo Razin, e, mais tarde, ligeiramente alterado por Joaquim Alves.

Além do jornal, para incrementar a difusão da Doutrina e prestigiar a Federação, propôs a criação de uma hora espírita, que foi contratada com a Rádio Tupi, aos domingos, e dirigida pelo confrade João Rodrigues Montemor.

Para a tribuna da Casa eram trazidos oradores espíritas de renome, da capital e de fora, custeando-se as despesas, como também se convidavam líderes de outras religiões e filosofias, para dar à Casa, desde início, caráter liberal e fraterno, de um Espiritismo racional e universalista, o que redundou em grande prestígio público para o Espiritismo em geral.

As conferências públicas da manhã e noite dos domingos atraíam grande assistência, e os programas eram publicados previamente em jornais de larga circulação; as da manhã eram de responsabilidade do saudoso confrade Pedro de Camargo — Vinícius — e as da noite, em rodízio entre os confrades Américo Montagnini, Godoy Paiva e outros.

O Departamento Federativo foi desenvolvido amplamente e a secretaria geral convidava mensalmente os centros, em rodízio, para reuniões conjuntas e festivais na Federação, visando à fraternização e à sociabilização coletiva, e vários confrades dedicaram a ele seus esforços.

Os congressos

Em 1947, para unir a família espírita do Estado e unificar as práticas doutrinárias, a Secretaria propôs um largo plano de ação que, através de uma comissão composta de três membros, incluindo os confrades Luiz Monteiro de Barros e Vergueiro, foi submetido às quatro maiores entidades espíritas da Capital e em todos os detalhes prontamente aprovado. Propôs também a criação da USE — União Social Espírita, entidade unificadora, sob legenda, e foi efetivada a unificação na quase totalidade e convocado para esta capital o 1º Congresso de Unificação Estadual, que reuniu na Federação a quase totalidade das instituições espíritas do estado, fazendo-se, ainda, um recenseamento geral dos espíritas, que acusou um total de 700.000 adeptos, incluindo grupos particulares de existência regular. Tudo foi feito quase sem despesas, com a colaboração espontânea de todos, dando assim a Federação um notável exemplo de dinamismo e eficiência e sendo a Doutrina bastante divulgada, com ampla publicidade no Estado e fora dele, passando a Casa a exercer, desde então, destacada e incontestável liderança no Estado e entre as congêneres do país.

Desenvolvendo a iniciativa, a Secretaria propôs também a convocação de um Congresso Nacional, a reunir-se também aqui em São Paulo que, da mesma forma, teve grande êxito e com o qual se recusou a FEB a colaborar e reconhecer, mas que teve grande influência no setor nacional, com a criação, a posteriori, na área da referida FEB, do Conselho Federativo Nacional, cujas atividades têm sido, desde então, mais que tudo burocráticas.

No livro intitulado Anais do Primeiro Congresso Espírita do Estado de São Paulo, editado na ocasião, encontra-se a descrição pormenorizada e completa dessa iniciativa histórica do Movimento Espírita em nosso Estado, realizado pela Federação.

Terminados os Congressos de unificação estadual e nacional, como não convinha ao comandante permanecer na presidência da antiga USE para não prejudicar a administração da Federação, aconselhou aos companheiros da antiga diretoria que não concorressem à renovação dos cargos em nova eleição, para que a legenda tivesse liberdade de ação e agisse por si mesma no prosseguimento de sua importante tarefa. Mas, infelizmente, nem todos se afastaram e a nova diretoria, que então se formou, caminhou em sentido diferente, transformando-se a legenda transitória em entidade competitiva com as Patrocinadoras da iniciativa. Isso foi um erro grave, que redundou, senão em fracasso, pelo menos em grande retardamento da unificação por mais de 25 anos, tentando-se novamente nestes dias a malograda realização.

Não obstante essa alteração de rumos e de princípios organizativos, a Federação jamais regateou auxílio à nova entidade, que passou a se chamar União das Sociedades Espíritas e até hoje o faz, como é do conhecimento geral.

Em 1953, a Secretaria Geral concorreu grandemente à promoção, no Rio de Janeiro, de uma enquete em vários jornais, entre outros assuntos, sobre Espiritismo e Umbanda, após uma série de artigos publicados no Semeador, pelo comandante, visando esclarecer o público sobre as diferenças entre uma e outra dessas duas correntes religiosas e eliminar confusões e interferências de Umbanda nos Centros Espíritas, tornando assim o problema melhor ventilado em público e conhecido, igualmente, pelas autoridades públicas e culturais do País. Nessa enquete manifestaram-se vários representantes do Espiritismo e da Umbanda.

Aprendizes do Evangelho

Para situar o Espiritismo à vontade em relação aos conhecimentos e tradições religiosas da humanidade, duas coisas foram também realizadas com desassombro: uma, no campo externo — a publicação de vários livros de formação cultural-doutrinária, como Os Exilados da Capela (1949) e Na Cortina do Tempo (1962), mostrando os albores das civilizações primitivas, seu intercâmbio com outros orbes, assuntos estes que, atualmente, estão sendo afoitamente tratados em obras “best-sellers” por escritores estrangeiros de nomeada; e no campo interno, no cumprimento do programa do Alto, se criou a Escola de Aprendizes do Evangelho (1950), órgão primeiro de uma Iniciação Espírita de larga esfera de ação, com base no Evangelho Cristão; e uma série de 21 livros didáticos, parte deles para uso na referida Escola e parte para a Fraternidade dos Discípulos de Jesus, termo global da Iniciação referida.

Nessa Iniciação foram oferecidos conhecimentos espirituais mais amplos, com predominância do que foi estabelecido para a reforma íntima dos adeptos, base insubstituível da evangelização, a seu turno condição fundamental da redenção espiritual do homem encarnado.

No planejamento dessa Iniciação surgiram dificuldades no processo a adotar para se conseguir executar a reforma íntima, valendo-se por fim, o comandante, da caderneta pessoal usada pelos antigos essênios do tempo de Jesus, descrita no livro Harpas Eternas de Hilarion do Monte Nebo, contemporâneo e servidor de Jesus naqueles tempos, livro esse que lhe foi enviado da Argentina, pelo autor, antes do lançamento; com algumas alterações e adaptações, o sistema foi adotado com excelentes resultados.

Na criação dessa Iniciação tinha-se também em vista unir os adeptos por uma mística religiosa cristã, visando à redenção espiritual de cada um, convenientemente adequada à mentalidade moderna e à racionalidade da Doutrina Espírita, o que até o presente tem sido êxito indiscutível na Federação(*), mas prejudicado fora dela devido, de uma parte, aos temores de se lançarem os dirigentes, desassombradamente, à expansão e, de outra, à negligência existente entre os espíritas do sexo masculino em relação à evangelização, objetiva e deliberadamente conduzida, sendo esse, em grande parte, um dos motivos do retardamento da expansão do Espiritismo em nosso País.

Assistência social

O Departamento de Assistência Social nasceu e iniciou seu desenvolvimento na própria sede, dirigido inicialmente por um pequeno grupo de senhoras e moças que, ao depois, criaram e mantém até agora, com grande êxito, a instituição de assistência infantil denominada “Nosso Lar”; passaram por ele vários confrades que, infelizmente, não permaneceram, sendo necessário, periodicamente, que a própria secretaria geral avocasse a direção; isso, até que o Departamento pudesse ser entregue ao valoroso confrade José Gonçalves Pereira e mudado para a rua Santo Amaro, em prédio interditado pela Prefeitura e adquirido para uso precário durante vários anos e, mais tarde, adquirido também o terreno ao lado, onde se edifica hoje em dia a nova sede da Federação.

Sob a direção do confrade Gonçalves, o departamento se desenvolveu amplamente, mas esse desenvolvimento exigia sua mudança para local fora do centro da cidade, o que foi conseguido com obtenção de um comodato a longo prazo, concedido pelo governo Jânio Quadros, com auxílio direto da Secretaria Geral junto ao major Pina de Figueiredo, genro do comandante, resultando daí a Casa Transitória, que é hoje motivo de satisfação e orgulho realizador para todos da Federação.

O período que vai de 1950 a 1965 foi marcado por atividades multiformes, aprimoramento de trabalhos práticos, desenvolvimento da consolidação da organização montada de início e que comporta ainda amplos desdobramentos, sem alterações de sua estrutura original; como também grande impulso dado à difusão por vários meios, inclusive pela publicação de várias obras didáticas, litero-doutrinárias e opúsculos de bolso, escritos para ampla distribuição no meio popular, de cujo trabalho não se pode esquecer a colaboração preciosa prestada pelo confrade Coutinho, ex-diretor do Departamento de Assistência Espiritual da Federação.

Epílogo

Ao adoecer, em fins de 1965, o Comandante, mesmo assim, prosseguiu colaborando oficialmente, ainda por dois anos, até as eleições de 1967, quando solicitou seu afastamento definitivo, por ver que a moléstia era de curso demorado, pedindo também dispensa dos serviços do Conselho, por não poder assumir compromissos de assíduo cumprimento.

Dedica-se, desde então, e enquanto lhe for ainda possível, a colaborar, a distância, no setor da publicidade, da organização de centros e organizações espíritas, atuando na difusão evangélica e sua expansão, inclusive em países estrangeiros.

Ao se retirar, deixou sem efetivação dois problemas pelos quais sempre se bateu: a construção da nova sede, para melhor instalação de cursos, escolas e serviços de administração, para o que, deixou em mãos da DE um esboço de construção em quatro andares, com escada externa, para os casos de incêndio, e um esboço, também de unificação doutrinária, atualmente em pleno curso com projeto diferente.

E agora, atendendo à solicitação, oferece esta biografia-relatório resumido, único meio adequado ao caso, pelo estreito entrosamento de sua modesta pessoa aos acontecimentos da vida material e espiritual da Federação.

E, antes de encerrar, convém ainda dizer que, desde o início, o trabalho realizado foi de equipe conduzida por um chefe espiritualmente responsável, e o êxito obtido foi resultado do ideal evangélico, adquirido em grande parte na Escola de Aprendizes, que se conseguiu implantar na mente e no coração de cada trabalhador que, aliás, demonstraram todos, com raras exceções, magnificamente dotados de inegável capacidade realizadora; e os nomes individualmente citados não representam distinções, mas circunstâncias de ordem funcional.

A síntese espiritual do que foi narrado é, pois, a seguinte:

1910 a 1926 — No Rio de Janeiro e São Paulo: estudos especiais de filosofia e religião.

1926 a 1938 — Primeiros contatos e estudos teóricos de Espiritismo.

1940 a 1965 — Organização e direção efetiva da Federação.

1965 a 1967 — Colaboração a distância sem compromissos de subordinação administrativa ou funcional.

1967 em diante — Colaboração livre e reduzida em várias atividades doutrinárias, de interesse geral do Espiritismo no estado, no País e no Estrangeiro.

Nota do comandante:

Como estes dados são fornecidos quase sempre de memória, é possível que haja discrepância aqui ou ali, sobretudo na cronologia dos fatos, o que, todavia, serão de fácil retificação.

Nota:

A partir de 1970, passa a orientar as atividades de companheiros impulsionados ao trabalho evangélico nos moldes originalmente determinados pelo Plano Espiritual Superior na década de 1950. Em uma reunião em sua residência, em 4 de dezembro de 1973, estes companheiros fundaram a Aliança Espírita Evangélica, com a proposta de expandir, através da atuação dos Centros Espíritas Integrados a este programa, a expressão do aspecto religioso do Espiritismo.

Durante os primeiros anos de organização da Aliança, o comandante supervisionou a produção de novas obras editoriais, tanto para uso das Escolas de Aprendizes nos Grupos Integrados, que rapidamente se multiplicavam, como para formar o catálogo editorial da então nascente Editora Aliança.

Graças a este vigoroso impulso, bem como sua serenidade e experiência no trabalho espírita evangélico, a Aliança cresceu e se expandiu, tornando-se mais uma referência em termos de trabalhos doutrinários em nosso País.

A partir de 1980 o comandante também assessorou a formação do Setor III da Fraternidade dos Discípulos de Jesus, que reúne diversos grupos espíritas, igualmente vinculados à tarefa de expansão do Espiritismo Religioso através da imensa capacidade renovadora de consciências e corações constituída pela Escola de Aprendizes do Evangelho.

Retornando aos pensamentos apresentados no início, concluímos que, para Armond, a grande Transição para a Vida Maior provavelmente significou tão somente a continuidade de uma extensa folha de serviços ao Divino Mestre, pois o comandante permanece em plena atividade no trabalho redentor.
Fonte: Internet


EURÍPEDES BARSANULFO


Nascido em 1º de maio de 1880, na pequena cidade de Sacramento, Estado de Minas Gerais, e desencarnado na mesmo cidade, aos 38 anos de idade, em 1o. de novembro de 1918.

Logo cedo se manifestou nele profunda inteligência e senso de responsabilidade, acervo conquistado naturalmente nas experiências de vidas pretéritas.

Era ainda bem moço, porém muito estudioso e com tendências para o ensino, por isso foi incumbido pelo seu mestre-escola de ensinar aos próprios companheiros de aula. Respeitável representante político de sua comunidade tornou-se secretário da Irmandade de São Vicente de Paula, tendo participado ativamente da fundação do jornal "Gazeta de Sacramento" e do "Liceu Sacramento". Logo viu-se guindado à posição natural de líder, por sua segura orientação quanto aos verdadeiros valores da vida.

Através de informações prestadas por um dos seus tios, tomou conhecimento da existência dos fenômenos espíritas e das obras da Codificação Kardequiana. Diante dos fatos voltou totalmente suas atividades para a nova Doutrina, pesquisando por todos os meios e maneiras, até desfazer totalmente suas dúvidas.

Despertado e convicto, converteu-se sem delongas e sem esmorecimentos, identificando-se plenamente com os novos ideais, numa atitude sincera e própria de sua personalidade, procurou o vigário da Igreja matriz onde prestava sua colaboração, colocando à disposição do mesmo o cargo de secretário da Irmandade.

Repercutiu estrondosamente tal acontecimento entre os habitantes da cidade e entre membros de sua própria família. Em poucos dias começou a sofrer as conseqüências de sua atitude incompreendida.

Persistiu lecionando e entre as matérias incluiu o ensino do Espiritismo, provocando reação em muitas pessoas da cidade, sendo procurado pelos pais dos alunos, que chegaram a oferecer-lhe dinheiro para que voltasse atrás quanto à nova matéria e, ante sua recusa, os alunos foram retirados um a um.

Sob pressões de toda ordem e impiedosas perseguições, Eurípedes sofreu forte traumatismo, retirando-se para tratamento e recuperação em uma cidade vizinha, época em que nele desabrocharam várias faculdades mediúnicas, em especial a de cura, despertando-o para a vida missionária. Um dos primeiros casos de cura ocorreu justamente com sua própria mãe que, restabelecida, se tornou valiosa assessora em seus trabalhos.

A produção de vários fenômenos fez com que fossem atraídas para Sacramento centenas de pessoas de outras paragens, abrigando-se nos hotéis e pensões, e até mesmo em casas de famílias, pois a todos Barsanulfo atendia e ninguém saía sem algum proveito, no mínimo o lenitivo da fé e a esperança renovada e, quando merecido, o benefício da cura, através de bondosos Benfeitores Espirituais.

Auxiliava a todos, sem distinção de classe, credo ou cor e, onde se fizesse necessária a sua presença, lá estava ele, houvesse ou não condições materiais.

Jamais esmorecia e, humildemente, seguia seu caminho cheio de percalços, porém animado do mais vivo idealismo. Logo sentiu a necessidade de divulgar o Espiritismo, aumentando o número dos seus seguidores. Para isso fundou o "Grupo Espírita Esperança e Caridade", no ano de 1905, tarefa na qual foi apoiado pelos seus irmãos e alguns amigos, passando a desenvolver trabalhos interessantes, tanto no campo doutrinário, como nas atividades de assistência social.

Certa ocasião caiu em transe em meio dos alunos, no decorrer de uma aula. Voltando a si, descreveu a reunião havida em Versailles, França, logo após a I Guerra Mundial, dando os nomes dos participantes e a hora exata da reunião quando foi assinado o célebre tratado.

Em 1o. de abril de 1907, fundou o Colégio Allan Kardec, que se tornou verdadeiro marco no campo do ensino. Esse instituto de ensino passou a ser conhecido em todo o Brasil, tendo funcionado ininterruptamente desde a sua inauguração, com a média de 100 a 200 alunos, até o dia 18 de outubro, quando foi obrigado a cerrar suas portas por algum tempo, devido à grande epidemia de gripe espanhola que assolou nosso país.

Seu trabalho ficou tão conhecido que, ao abrirem-se as inscrições para matrículas, as mesmas se encerravam no mesmo dia, tal a procura de alunos, obrigando um colégio da mesma região, dirigido por freiras da Ordem de S. Francisco, a encerrar suas atividades por falta de freqüentadores.

Liderado a pulso forte, com diretriz segura, robustecia-se o movimento espírita na região e esse fato incomodava sobremaneira o clero católico, passando este, inicialmente de forma velada e logo após, declaradamente, a desenvolver uma campanha difamatória envolvendo o digno missionário e a doutrina de libertação, que foi galhardamente defendida por Eurípedes, através das colunas do jornal "Alavanca", discorrendo principalmente sobre o tema: "Deus não é Jesus e Jesus não é Deus", com argumentação abalizada e incontestável, determinando fragorosa derrota dos seus opositores que, diante de um gigante que não conhecia esmorecimento na luta, mandaram vir de Campinas, Estado de S. Paulo, o reverendo Feliciano Yague, famoso por suas pregações e conhecimentos, convencidos de que com suas argumentações e convicções infringiriam o golpe derradeiro no Espiritismo.

Foi assim que o referido padre desafiou Eurípedes para uma polêmica em praça pública, aceita e combinada em termos que foi respeitada pelo conhecido apóstolo do bem.

No dia marcado o padre iniciou suas observações, insultando o Espiritismo e os espíritas, "doutrina do demônio e seus adeptos, loucos passíveis das penas eternas", numa demonstração de falso zelo religioso, dando assim testemunho público do ódio, mostrando sua alma repleta de intolerância e de sectarismo.

A multidão que se mantinha respeitosa e confiante na réplica do defensor do Espiritismo, antevia a derrota dos ofensores, pela própria fragilidade dos seus argumentos vazios e inconsistentes.

O missionário sublime aguardou serenamente sua oportunidade, iniciando sua parte com uma prece sincera, humilde e bela, implorando paz e tranqüilidade para uns e luz para outros, tornando o ambiente propício para inspiração e assistência do plano maior e em seguida iniciou a defesa dos princípios nos quais se alicerçavam seus ensinamentos.

Com delicadeza, com lógica, dando vazão à sua inteligência, descortinou os desvirtuamentos doutrinários apregoados pelo Reverendo, reduzindo-o à insignificância dos seus parcos conhecimentos, corroborado pela manifestação alegre e ruidosa da multidão que desde o princípio confiou naquele que facilmente demonstrava a lógica dos ensinos apregoados pelo Espiritismo.

Ao terminar a famosa polêmica e reconhecendo o estado de alma do Reverendo, Eurípedes aproximou-se dele e abraçou-o fraterna e sinceramente, como sinceros eram seus pensamentos e suas atitudes.

Barsanulfo seguiu com dedicação as máximas de Jesus Cristo até o último instante de sua vida terrena, por ocasião da pavorosa epidemia de gripe que assolou o mundo em 1918, ceifando vidas, espalhando lágrimas e aflição, redobrando o trabalho do grande missionário, que a previra muito antes de invadir o continente americano, sempre falando na gravidade da situação que ela acarretaria.

Manifestada em nosso continente, veio encontrá-lo à cabeceira de seus enfermos, auxiliando centenas de famílias pobres. Havia chegado ao término de sua missão terrena. Esgotado pelo esforço despendido, desencarnou no dia 1o. de novembro de 1918, às 18 horas, rodeado de parentes, amigos e discípulos.

Sacramento em peso, em verdadeira romaria, acompanhou-lhe o corpo material até a sepultura, sentindo que ele ressurgia para uma vida mais elevada e mais sublime.

DIVALDO PEREIRA FRANCO


UM MÉDIUM, UM ORADOR, UM EDUCADOR

Divaldo é um verdadeiro apóstolo do Espiritismo. Dos seus mais de oitenta anos, mais de sessenta foram devotados à causa Espírita e às crianças excluídas, das periferias de sua Salvador. Nasceu em cinco de maio de 1927, na cidade de Feira de Santana, Bahia, e desde a infância se comunica com os espíritos. Cursou a Escola Normal Rural de Feira de Santana, recebendo o diploma de professor primário, em 1943. Trabalhou como escriturário no antigo IPASE, em Salvador, aposentando-se em 1980.

Concedendo entrevista

É reconhecido como um dos maiores médiuns e oradores Espíritas da atualidade e o maior divulgador da Doutrina Espírita por todo o Mundo.

Seu currículo revela um exímio e devotado educador com mais de 600 filhos adotivos e mais de 200 netos, atendendo atualmente a cerca de 3.000 crianças, adolescentes e jovens de famílias de baixa renda, por dia, em regime de semi-internato e externato.

Orador com mais de 11.000 conferências, em mais de 2.000 cidades em todo o Brasil e em 62 países, concedendo mais de 1.100 entrevistas de rádio e TV, em mais de 450 emissoras. Recebeu mais de 700 homenagens, de instituições culturais, sociais, religiosas, políticas e governamentais.

Como médium, publicou 202 livros, com mais de 8 milhões de exemplares, onde se apresentam 211 Autores Espirituais, muitos deles ocupando lugar de destaque na literatura, no pensamento e na religiosidade universais. Dessas obras, houve 92 versões para 16 idiomas (alemão, albanês, catalão, espanhol, esperanto, francês, holandês, húngaro, inglês, italiano, norueguês, polonês, tcheco, turco, russo, sueco e sistema Braille). Além de 17 escritos por outros autores, sobre sua vida e sua obra. A renda proveniente da venda dessas obras, bem como os direitos autorais foi doada, em Cartório, à Mansão do Caminho e outras entidades filantrópicas.

Espírita convicto, fundou o Centro Espírita Caminho da Redenção em sete de setembro de 1947.

Acervo técnico

Dois anos depois, iniciou a sua tarefa de psicografia. Diversas mensagens foram escritas por seu intermédio. Sob a orientação dos Benfeitores Espirituais guardou o que escreveu, até que um dia recebeu a recomendação para queimar tudo o que escrevera até ali, pois não passava de simples exercício. Com a continuação, vieram novas mensagens assinadas por diversos Espíritos, dentre eles: Joanna de Ângelis, que durante muito tempo apresentava-se como Um Espírito Amigo, ocultando-se no anonimato à espera do instante oportuno para se identificar. Joanna revelou-se como sua orientadora espiritual, escrevendo inúmeras mensagens, num estilo agradável repassado de profunda sabedoria e infinito amor, que conforta as pessoas necessitadas dando diretriz espiritual.

Em 1964, Divaldo, sob orientação de Joanna de Ângelis, selecionou várias mensagens de autoria da mentora e enfeixou-as no livro Messe de Amor, que se tornou o primeiro livro psicografado por Divaldo. Atualmente, o médium é recordista e conta com 202 títulos publicados, incluindo os biográficos que retratam sua vida e obra.

MANSÃO DO CAMINHO

Divaldo Pereira Franco é emérito educador. Fundou em 1952, na cidade de Salvador, Bahia, com Nilson de Souza Pereira, a Mansão do Caminho, instituição que acolheu e educou crianças sob o regime de Lares Substitutos.

Em 20 Casas Lares, educou mais de 600 filhos, hoje emancipados, a maioria com família constituída.

Alguns Diplomas

Na década de 60, iniciou a construção de escolas, oficinas profissionalizantes e atendimento médico.

Hoje, a Mansão do Caminho é um admirável complexo educacional com 83.000 m2 e 50 edificações que atende a três mil crianças e jovens de famílias de baixa renda, na Rua Jaime Vieira Lima, n° 1 , Pau da Lima, um dos bairros periféricos mais carentes de Salvador. O complexo atende a diversas atividades sócio-educacionais como: enxovais, Pré-Natal, Creche, escolas de ensino básico de 1º e 2º graus, Informática, Cerâmica, Panificação, Bordado, Reciclagem de Papel, Centro Médico, Laboratório de Análises Clínicas, Atendimento Fraterno, Caravana Auta de Souza, Casa da Cordialidade e Bibliotecas. Mais de 30 mil crianças passaram, até hoje, pelos vários cursos e oficinas da Mansão do Caminho. A obra é basicamente mantida com a venda dos livros mediúnicos e das fitas gravadas nas palestras, seminários, entrevista e mensagens por Divaldo.

HOMENAGENS

Divaldo Franco recebeu homenagens em diversos países e cidades da América do Norte,

Algumas Condecorações

Central, do Sul, Europa e África:

• 20 Comendas

• 334 Placas de prata, douradas e bronze

• 54 Medalhas • 49 Troféus

• 43 Moções de Congratulações

• 187 Diplomas e Certificados

• 12 Títulos Honoríficos significativos.

Dentre todas essas maravilhosas homenagens, destacam-se:

• 1991 – Título Honoris Causa em Humanidade, pelo Colégio Internacional de Ciências Espirituais e Psíquicas, em Montreal, Canadá em 23.05.1991.

• 1997 – Decreto de Ordem do Mérito Militar, 31.03.1997, pelo Presidente da República do Brasil.

• 2001 – Medalha Chico Xavier, do Governo do Estado de Minas Gerais.

• 2002 – Título de Doutor Honoris Causa em Humanidades, pela Universidade Federal da Bahia.

• 2002 – Homenagem da Universidade Estadual de Feira de Santana.

• 2005 – Título de Embaixador da Paz no Mundo, junto com o amigo Nilson de Souza Pereira. O título foi recebido em Genebra, na Suíça, em 30 de dezembro de 2005, pela Ambassade Universalle Pour la Paix.

PEDRO DE CAMARGO "VINÍCIUS"


Pedro de Camargo, mais conhecido por “Vinícius”, pseudônimo que ele adotou e usou por mais de cinqüenta anos de trabalho contínuo e perseverante na Doutrina, foi, não há dúvida, o maior educador e evangelizador espírita dos nossos tempos.Também se dedicou, de corpo e alma, ao setor de assistência social, embora nunca deixasse de acentuar que o objetivo máximo da Terceira Revelação é iluminar as consciências, é anunciar pela palavra, e confirmar pelo exemplo, as verdades do Reino de Deus.

Na tribuna, na imprensa, no rádio e através de seus livros, o grande saber e as virtudes de Vinícius sempre estiveram presentes, esclarecendo-nos e convidando-nos à ascensão. Ao seu bondoso espírito aliava o conhecimento intelectual e intuitivo das coisas humanas e divinas, o que o fazia respeitado, e venerado mesmo, entre os companheiros de lides doutrinárias.

A começar de 1939, desenvolveu, pelas ondas hertzianas, da Rádio Educadora de São Paulo, um programa evangélico sempre ouvido com agrado e proveito por todos os interessados. Foi diretor- superintendente da primeira “estação dos espíritas” (hoje extinta), a Rádio Piratininga – PRH-3, fundada em 1940. Seus esforços a prol da Unificação do movimento espírita brasileiro foram relevantes, e ele próprio esteve lado a lado de outros confrades nas reuniões que conduziram à criação do Conselho Federativo Nacional, tendo sido aquele que, ao encerramento dos trabalhos do Pacto Áureo de 5 de outubro de 1949, proferiu, a convite do presidente da FEB, belíssima prece.

Pedro de Camargo nasceu em Piracicaba, Estado de São Paulo, no dia 7 de maio de 1878. Foram seus pais Antônio Bento de Camargo e Sebastiana do Amaral Camargo. Entre os cinco filhos do casal, três homens e duas mulheres, ele era o quarto.

Fez os seus primeiros anos de escolaridade no “Colégio Piracicabano”, educandário metodista, de fundação norte-americana. Nessa época, a diretora do estabelecimento era a missionária Martha H. Watts, de quem ele guardou sempre uma lembrança querida e uma grande admiração.

São dele as seguintes palavras extraídas de um artigo que escreveu por ocasião da morte da missionária, ocorrida nos Estados Unidos da America.: “Eu bem me lembro que perto de Miss Watts ninguém era capaz de mentir ou dissimular; as traquinadas e travessuras, escondidas cautelosamente, eram-lhe fielmente narradas quando nos interpelava, tal o império que sobre nós sabia exercer, sem jamais usar para isso de outro meio que não a força do bem e o devotamento com que praticava seu sagrado sacerdócio.

Muito lhe deve a sociedade piracicabana; muito lhe devem seus ex-alunos. Cedo, perdeu o pai, e cedo começou a ganhar a vida.

Entrou para o comércio. Trabalhava com seus irmãos mais velhos. Jovem ainda, e influenciado por um amigo, resolveu estabelecer-se. Esse amigo, José Bento de Carvalho, morava em Santos e, de quando em vez, viajava para Piracicaba, a fim de colocar as suas mercadorias – secos e molhados finos. Foi dentro desse ramo que Pedro de Camargo deu início ao seu negócio.

A casa chamou-se “O Garrafão”. Teve êxito, prosperava rapidamente. Todavia, pouco tempo depois, ampliando-a deu preferência a “louças e ferragens”. Também o nome da casa foi mudado para “As Duas Ancoras”, onde trabalhou por muitos anos, e sempre nunca lhe faltou nada, nem à sua família. Amparou muita gente, e jamais alguém lhe bateu à porta que não fosse atendido e bem socorrido.

Que o digam os piracicabanos de seu tempo. Ele e José Bento de Carvalho foram sempre muito amigos – amigos do peito. Ambos bem jovens, já abraçavam com entusiasmo a religião espírita, nela tendo encontrado, afinal, explicações racionais que em vão buscaram nas demais doutrinas religiosas, inclusive no Metodismo. Casou-se em primeiras núpcias com D. Elisa Runcke, de quem enviuvou muito cedo.

Desse consórcio tiveram uma filha (já falecida) a quem deram o nome de Martha, em homenagem à querida mestra.

Em segundas núpcias casou-se com D. Messiota de Campos Pereira, de Juiz de Fora, Minas Gerais, falecida em 26 de novembro de 1952. Desse casamento deixou cinco filhos, um homem e quatro mulheres.

Viveu em Piracicaba até o ano de 1937, ali tendo dirigido a Igreja Espírita “Fora da Caridade Não Há Salvação”. Transferindo-se para a cidade de São Paulo, em 1938, nessa capital permaneceu até a data de sua desencarnação.

Pedro de Camargo educou todos os filhos no Colégio Piracicabano, que então estava sob a direção de Miss Lilá A.Stradley, com quem ele manteve boas relações de amizade. Foi procurador do Colégio por muitos anos. O Colégio Piracicabano era, na época, um dos melhores educandários do Estado de São Paulo e, até mesmo, do Brasil. Seguindo os currículos e os métodos das escolas norte-americanas, atraía para lá famílias distintas e tradicionais da Capital.

O único filho varão de Vinícius cursou em seguida a Escola Politécnica de São Paulo, e alcançou o cargo de diretor da Secção de Engenharia Nuclear do “Reator” de São Paulo. Educação esmerada receberam as filhas, todas casadas, exceto D. Ruth.

Onze netos e dois bisnetos encontraram no coração amoroso de Vinícius um segundo lar.

Por muitos anos a “Sociedade de Cultura Artística” de Piracicaba. Levou para lá os melhores artistas. Nunca se afinou bem com a política. Muito moço, ao assumir a cadeira de vereador, na Câmara Municipal de Piracicaba, eleito por indicação do Partido Republicano, disse, entre outras afirmativas, o seguinte: “Não sou político, isto é, não me comprometo absolutamente com as idéias de um partido ou com os princípios que os constituam, porque os partidos têm suas disciplinas e não desejo seguir outra disciplina que não seja a do dever e ouvir outra voz que não a da razão e da consciência”.

E – como dizia ele mais tarde – porque agi de conformidade com este critério, não me quiseram mais! Sua vida intelectual; dedicou-a ao estudo do Evangelho à luz do Espiritismo. Poucos se aprofundaram tanto no assunto. Era, de fato, um apaixonado admirador do Mestre, tanto que todas as suas obras escritas tiveram esses títulos: “Em Torno do Mestre”, “Na Seara do Mestre”, “Nas Pegadas do Mestre” e “Na Escola do Mestre”, as três primeiras publicadas pela Federação Espírita Brasileira. É ainda de sua autoria o opúsculo – “Cinqüentenário de O Piracicabano”.

Foi grande orador, sempre dentro do seu tema predileto, emocionando a quantos tinham a ventura de ouvi-lo. Conselheiro da Federação Espírita do Estado de São Paulo, ali introduziu as suas apreciadíssimas Tertúlias Evangélicas, realizadas todos os domingos pela manhã, com o comparecimento de grande assistência.

Perene admirador da Casa de Ismael, sempre lhe consagrou inteiro apoio, tendo colaborado por dezenas de anos no “Reformador”, com artigos que primavam pela essência altamente doutrinária e evangélica, num estilo escorreito e, ao mesmo tempo, fluente e didático. Essa colaboração escrita, ele a estendeu a inúmeros outros órgãos da imprensa espírita brasileira.

Chegou a ser presidente da União Federativa Espírita Paulista, e durante mais de uma década foi diretor-gerente de “O Semeador”, órgão da Federação Espírita do Estado de São Paulo, fundado em 1944. Presidiu o “Instituto Espírita de Educação” até 1962, obra de grande relevância em S. Paulo. Como parte desse Instituto, surgiu em 1955 o Externato Hilário Ribeiro, elogiadíssimo por quantos o visitam. Havia alguns anos que os achaques naturais de uma idade avançada impediam-no de maiores atividades, daí porque sua colaboração escrita e falada quase desapareceu.

A última carta que ele endereçou ao presidente da FEB, Sr. A Wantuil de Freitas, datada de 14 de Agosto de 1965, foi escrita com a ajuda do seu filho, e dizia assim num certo trecho:

“Guardo com grande carinho a fotografia da reunião de 1949. Os resultados dessa reunião, se não foram completos, foram todavia testemunho do que já se conseguiu a respeito da unificação. “As saudades não matam, mas maltratam. Outro dia encontrei uma velha fotografia do Manuel Quintão, que veio aumentar ainda, se possível, as recordações saudosas daqueles dias. Lembrei-me do Dr. Guillon Ribeiro, do Leopoldo Cirne, do Frederico Figner e de outros companheiros. Ainda tenho a esperança de vê-lo, aqui, em São Paulo, na primeira oportunidade.

“A minha grande distração que era ler e escrever um pouco; estou impedido de fazê-lo, em virtude dessas dificuldades dos sentidos, particularmente da vista”. Às 20 horas do dia 11 de outubro de 1966, o Espírito de Vinícius passava à Pátria Espiritual. Foi-lhe dado, então, ver, olhos não mais enevoados, os companheiros a que ele se referira em sua carta, rodeados por uma multidão de criaturas que se beneficiaram com seus ensinos, todos homenageando-o pelo brilhante êxito de sua missão de evangelizador nas terras brasileiras.

Tal foi a existência de Vinícius, toda ela dedicada à causa da educação e do soerguimento moral das criaturas humanas. Daí porque, dias depois de atravessar as aduanas do Além, ele pôde transmitir bela e confortadora mensagem aos seus amigos e companheiros da Casa de Ismael, participando-lhes a sua feliz ressurreição nos planos da Vida Maior!


JOSÉ HERCULANO PIRES


José Herculano Pires, o maior escritor espírita brasileiro, decididamente não se conformava com o que via: de um lado o Espiritismo sendo duramente atacado, e por outro, apaixonadamente defendido. O problema estava num aspecto comum entre os atacantes e defensores: em sua maioria desconheciam o próprio Espiritismo.
“Os adversários partem do preconceito e agem por precipitação. Os espíritas formularam uma idéia pessoal da Doutrina, um estereótipo mental a que se apegaram” (Introdução à Filosofia Espírita).


Guardo comigo a convicção de que se baseie nessa análise (que podemos também desfrutar no Curso Dinâmico de Espiritismo) a sua maior motivação para o extenso e vigoroso trabalho que desenvolveu.

Herculano escreveu muito, num trabalho extenso e intenso. Abarcou os mais variados temas relacionados ao Espiritismo. Filosofia, educação, ciência, religião e movimento espírita eram seus temas prediletos. Este último foi motivo de muitas e fundadas polêmicas (nunca fugiu delas). No movimento espírita e fora dele, Herculano defendeu o Espiritismo com a energia de um Don Quixote. Os livros e artigos que escreveu, além dos debates do qual participou, construíram uma estampa única de defesa pública e destemida do Espiritismo, marcada pelo compromisso com a verdade e a lógica, mais do que com pessoas e instituições. Os “padres mágicos” (que chegavam a inventar experiências televisivas para “provar as fraudes dos espíritas”) e os pastores dedicados a atacar o Espiritismo tiveram cada um de seus argumentos ou simples acusações respondidos, na imprensa escrita, no rádio, na televisão. A sintaxe utilizada era a da exposição objetiva de fatos e argumentos. A semântica preferida era a do desenvolvimento lógico e racional.

No âmbito interno do movimento espírita foram igualmente combatidos as práticas espíritas que condenava (como as aplicações inadequadas da mediunidade) e conceitos espíritas equivocados (como o da reforma íntima). Inconformado com as inúmeras distorções que se aplicavam ao Espiritismo no próprio meio espírita, sobretudo pela Federação Espírita Brasileira, com sua inexplicável defesa de teses de Roustaing, Herculano não se fazia calar. Chegava mesmo a ferir suscetibilidades: o amor só tinha sentido e lugar se amparado na verdade.

Não tenho dúvidas de que Herculano era apaixonado pelo Espiritismo. Os seus estudos científicos, por exemplo, sempre recheados com uma infinidade de informações levantadas à exaustão junto a pesquisadores do mundo inteiro, e fortemente calcados na base e na metodologia kardequiana, chegavam a conclusões profundamente otimistas sobre os resultados conseguidos pela pesquisa espírita. Em Mediunidade chega a afirmar que a tese espírita da existência de energias espirituais típicas já havia sido comprovada cientificamente. A conclusão talvez seja discutível, haja vista a relutância ainda vigente nos dias atuais aos métodos e conclusões da pesquisa espírita, mas o que mais chama a atenção nesses estudos é a profunda capacidade de correlacionar informações diversas de maneira a cercar um problema e suas causas potenciais, lembrando e complementando o que faziam Bozzano e Kardec: a razão nos diz que não basta encontrar uma causa para um fenômeno, é necessário buscar a causa de um conjunto consistente de fenômenos.

Na discussão científica, o defensor também mostrou sua face. Em A Pedra e o Joio dedicou-se a combater as teorias científicas que se constróem entre os espíritas sem base sólida. Para Herculano, Kardec é a base fundamental. O método kardequiano, apoiado na razão e na universalidade de informações, e os conceitos fundamentais do Espiritismo, seriam para ele a estrutura sólida para o desenvolvimento das pesquisas espíritas. A destruição gratuita dessa base poderia colocar em risco todo o conjunto.

Na questão científica é também fundamental notar uma outra contribuição importante de Herculano: ele estabelecia em seus estudos a discussão explícita entre o Espiritismo e os diversos segmentos da pesquisa psíquica, do americano Rhine ao russo Vassiliev, do psicanalista Freud ao engenheiro Bozzano. Ao contrário de muitos, que timidamente preferem dogmatizar a Doutrina, discutindo apenas a sua lógica interna, Herculano expunha e desta forma mostrava a força da visão e do método espírita.

No que se refere ao tema educação, o seu trabalho foi, e continua sendo, ímpar. Numa única frase - “o educando é um espírito encarnado” - resumiu filosoficamente a contribuição do Espiritismo à educação. Propôs e estruturou a Pedagogia Espírita, fortemente calcada nos princípios da imortalidade e da evolução do espírito. Criou e dirigiu a revista Educação Espírita, que a despeito do pequeno número de edições (quantos realmente a apoiaram?), mantém-se ainda hoje como uma das mais importantes contribuições ao tema na nossa literatura. Também nesta área encontramos marcas de sua energia e seu entusiasmo. Afinal, quem além dele poderia se debruçar sobre um projeto de Faculdade de Espiritismo, com processo pedagógico diferenciado e com detalhamento da estrutura organizacional e do currículo? A educação espírita ganha identidade e corpo nas mãos de Herculano, mas a sua meta não é apenas influenciar os currículos escolares: o alcance da Pedagogia Espírita transcende a esta vida. Coerente com a visão kardequiana de que a consciência da imortalidade, a proposta de Herculano se resume atribuir transcendência aos atores e ao processo educacional. Em Educação para a Morte fica claro que o papel educacional do Espiritismo não está focalizado estritamente numa das duas facetas da vida (a encarnada ou a desencarnada), mas sim na sua totalidade. Visa o espírito integral.

Herculano foi jornalista e trabalhou vários anos nos Diários Associados. Escrever foi realmente a sua vida. O que chama mais a atenção, no entanto, é que seu estilo não se pautou estritamente na objetividade jornalística. Era fundamental a discussão, a análise, às vezes até a divagação por caminhos longos que no retorno davam nova feição ao ponto original. Não há dúvida de que Herculano foi acima de tudo um filósofo do Espiritismo. Para seu amigo argentino Humberto Mariotti, em Herculano Pires: Filósofo e Poeta, ele era um filósofo e pensava sobre o mundo e o ser com evidentes profundidades metafísicas. Ao publicar a sua Introdução à Filosofia Espírita, Herculano enfrentou o problema da análise do Espiritismo como doutrina filosófica, discutiu a teoria do conhecimento espírita, e propôs uma Filosofia Espírita da Existência, que chamou de Existencialismo Espírita: a busca na realidade concreta da essência possível, partindo dela para as induções metafísicas. Ao invés de partir da essência impalpável, e nela ficar, o Espiritismo parte dos fatos, dos fenômenos, do real, da vida. A discussão da existência leva à essência, não o contrário.

Ao propor uma concepção existencial, Herculano permite-nos também compreender o processo dialético vivido pelo espírito ao nascer, viver, morrer e renascer. Analisando mais especificamente o trabalho de Kardec percebemos que toda a teoria espírita se construiu a partir da observação dos fatos. A visão existencialista permite ver o papel de Kardec e dos demais elaboradores do Espiritismo na sua construção. O maior kardeciólogo que o mundo já viu também buscou, a cada instante, compreender, interpretar e avaliar o papel de Kardec.

Talvez seja possível resumir o que buscou continuamente Herculano: desvendar o grande desconhecido, ou seja, compreender e discutir visão de mundo do Espiritismo, analisar sua contribuição ao conhecimento humano, detalhar seu método, avaliar o papel de Kardec e dos Espíritos na sua elaboração, e mostrar a todos tudo o que descobriu.

Esta biografia foi elaborada por: Mauro Spinola, Engenheiro, Doutor em Engenharia de Computação, Professor Universitário, participante do CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação Espírita) e do Centro de Estudos Espíritas José Herculano Pires, de São Paulo, Capital.

BATUIRA


Nasceu Batuíra aos 19 de Março de 1839, em Portugal, na freguesia de Águas Santas, hoje integrada no conselho de Maia. Filho de humildes camponeses, tendo apenas completado a instrução primária, veio, com cerca de 11 anos de idade, para o Brasil, aportando na Guanabara a 3 de Janeiro de 1.850.

Durante três anos trabalhou no comércio da Corte. Daí passou para Campinas-SP, onde ficou por algum tempo até que se transferiu definitivamente para a capital paulista, que na ocasião deveria possuir menos de 30.000 habitantes. Aí, nos primeiros anos, foi distribuidor do "Correio Paulistano". Naquele tempo, não havia bancas de jornais nos lugares públicos. A entrega se fazia à tarde, de casa em casa, e tão somente aos assinantes.

Diligente, honesto e espírito dócil, Batuíra, como entregador de jornais, ia formando amigos e admiradores em toda parte. Parece que neste período que aprendeu a arte tipográfica, certamente nas próprias oficinas do "Correio Paulistano".

Batuíra, muito ativo, correndo daqui para acolá, foi apelidado "o batuíra", nome que o povo dava à narceja, ave pernalta, muito ligeira, de vôo rápido, que freqüentava os charcos na várzea formada, no atual Parque D. Pedro II, pelos transbordamentos do Rio Tamanduateí. O nome do rapazinho era ANTONIO GONÇALVES DA SILVA, mas, de então em diante, tomou para si o apelido de BATUÍRA.

Dentro de pouco tempo, com as economias que reuniu, e naturalmente com o auxilio de pessoas amigas, montou um teatrinho nos fundos de uma taverna da rua Cruz Preta. Naquela modesta casa de espetáculos, muitos amadores fizeram sua estréia, inclusive Batuíra.

Perseverando na sua faina, dedicou-se depois à fabricação de charutos. Assim, com bastante trabalho e economia, Batuíra fazia crescer suas modestas finanças, o que lhe permitiu esposar a Srta. BRANDINA MARIA DE JESUS, de quem teve um filho, JOAQUIM GONÇALVES BATUÍRA, que veio a falecer depois de homem feito e casado.

Audaz como os grandes empreendedores o são, investiu seu dinheiro na compra de áreas desvalorizadas, iniciando a construção de pequenas casas para alugar, tornando-se assim um abastado proprietário, cujos haveres traduziam o fruto de muitos anos de trabalho árduo e honrado, unido a uma perseverança inquebrantável.

Na ocasião em que tudo parecia correr bem, falece, quase repentinamente, o filho único de sua Segunda esposa, D. MARIA DA DORES COUTINHO E SILVA. Era uma criança de doze anos, por quem o casal se extremava em dedicação e carinho.

Este golpe feriu profundamente aquele lar, que só pode encontrar lenitivo à dor na consoladora Doutrina dos Espíritos.

Tão grande foi a paz que o Espiritismo lhes infundiu, que Batuíra imediatamente pôs mãos à obra, no desejo ardente de que outros companheiros de labutas terrenas tivessem conhecimento daquela abençoada fonte de esperanças novas. E dentro daquele corpo baixo e de compleição robusta, um coração de ouro iria dar mais larga expansão aos seus nobres sentimentos de amor ao próximo.

No ano de 1.889, Batuíra passou a ser, na cidade de S. Paulo, o agente exclusivo do "Reformador", função de que se encarregou até 1.899 ou 1.900.

No dia 6 de Abril de 1.890, restabeleceu o Grupo Espírita Verdade e luz que havia muito "se achava adormecido".

Adquiriu então uma pequena tipografia, destinada a divulgação e propagação do Espiritismo, editando a publicação quinzenal chamada "Verdade e Luz", que atingiu no ano de l.897, a marca de 15.000 exemplares.

Batuíra era também médium curador, sendo centenas as curas de caráter físico e espiritual que obtinha ministrando água efluviada ou aplicando "passes magnéticos".

Em virtude de todos esses fatos, o povo, o mais beneficiado por Batuíra, passou a denominá-lo "Médico dos Pobres", cognome que igualmente aureolou o nome de Adolfo Bezerra de Menezes.

A ação benemérita de Batuíra não se circunscrevia, entretanto a estas manifestações da caridade cristã. Foi muito mais além. Criou ele Grupos e Centros espíritas em S. Paulo, Minas Gerais, Estado do Rio, os quais animava e assistia; realizou conferências sobre diversos temas doutrinários, em inúmeras cidades de vários Estados, ocasião em que também visitava e curava irmãos sofredores; espalhou gratuitamente prospectos e folhetos de propaganda do Espiritismo, por ele próprio impressos, e distribuiu milhares de livros pelo interior do País.

Batuíra, unido a outros confrades ilustres, constituiu na capital paulista, a 24 de Maio de 1.908, a "União Espírita do Estado de S. Paulo", que federaria todos os Centros e Grupos existentes no Estado.
Assim era o valoroso obreiro da Terceira Revelação, o incansável lidador que nunca se deixou abater pelas asperezas da jornada, tendo sido incontestavelmente um dos maiores propagandistas do Espiritismo no Brasil.

Carregando sobre os ombros muitas responsabilidades, não sentiu, tão preso se achava ao cumprimento dos seus deveres, que suas forças vitais se esgotavam rapidamente. Súbita enfermidade assalta-lhe o corpo e zombando de todos os recursos médicos, em poucos dias obriga-o a transpor as aduanas do além. Aos 22 de Janeiro de 1.909, Sexta-feira, cerca de uma hora da madrugada, faleceu Sr. ANTÔNIO GONÇALVES DA SILVA BATUÍRA.

CAÍBAR SCHUTEL


No dia 22 de setembro de 1868, filho do casal Anthero de Souza Schutel e Rita Tavares Schutel, nasceu Caírbar de Souza Schutel, no Rio de Janeiro, então sede da Corte Imperial do Brasil, onde praticou em diversas farmácias e aos 17 anos de idade foi para o Estado de São Paulo, trabalhando como farmacêutico em Piracicaba, Araraquara e depois em Matão, cidade em que viveu durante 42 anos.

Possuidor de brilhante cultura, de grande prestígio social e sobretudo de notória autoridade moral, acabou sendo escolhido para o honroso e histórico cargo de primeiro Prefeito da cidade de Matão, cargo que ocupou por duas vezes, a primeira de 28 de março a 07 de outubro de 1899, voltando a exercê-lo de 18 de agosto a 15 de outubro de 1900, conforme consta das atas e dos registros históricos da municipalidade matonense.

Nascido em família católica, batizado aos 7 anos de idade, Caírbar Schutel cumpria suas obrigações perante a Igreja de Roma. Entretanto, já adulto e vivendo em Matão, passou a receber, em sonhos, a visita constante de seus falecidos pais, porque ele ficara órfão de ambos com menos de 10 anos de idade. Insatisfeito com as explicações de um padre para o fenômeno, Schutel procurou Quintiliano José Alves e Calixto Prado, que realizavam reuniões de práticas espíritas domésticas, logrando então entender a realidade do mundo extra-físico.

Convertido ao Espiritismo, cuidou logo de legalizar o Grupo (hoje Centro) Espírita Amantes da Pobreza, cuja ata de instalação foi lavrada no dia 15 de julho de 1905. Resolvido a difundir a Doutrina Espírita pelos quatro cantos do mundo - e mesmo vivendo em uma pequena e modesta cidade no interior do Brasil -, o "Bandeirante do Espiritismo", como ficou conhecido Caírbar Schutel, fundou o jornal "O Clarim" no dia 15 de agosto de 1905, e a RIE - Revista Internacional de Espiritismo no dia 15 de fevereiro de 1925, ambos circulando até hoje.

Além disso, o incansável arauto da Boa Nova, com todas as dificuldades da época e da região, viajava semanalmente até a cidade de Araraquara para proferir, aos domingos, as suas famosas "Conferências Radiofônicas", pela Rádio Cultura de Araraquara (PRD - 4), no período de 19 de agosto de 1936 a 02 de maio de 1937.

Escritor fértil, entre 1911 e 1937 escreveu os livros O batismo, Cartas a esmo, Conferências radiofônicas, Histeria e fenômenos psíquicos, O diabo e a igreja, Espiritismo e protestantismo, O espírito do cristianismo, Os fatos espíritas e as forças X..., Gênese da alma, Interpretação sintética do apocalipse, Médiuns e mediunidades, Espiritismo e materialismo, Parábolas e ensinos de Jesus, Preces espíritas, Vida e atos dos apóstolos, A questão religiosa, Liberdade e progresso, Pureza doutrinária, A vida no outro mundo e Espiritismo para crianças.

Para publicá-los, Schutel não mediu esforços: adquiriu máquinas, papel, tinta, cola e outros insumos para impressão, procurando escolher sempre material de primeira categoria. Desse esforço surgiu a Casa Editora O Clarim, que hoje emprega inúmeros funcionários em Matão, tendo publicado mais de cem títulos de obras de renomados autores, encarnados e desencarnados.

Consciente de sua responsabilidade como cidadão, cuidou de regularizar a sua união com Dª. Maria Elvira da Silva e Lima, com ela se casando no dia 31 de agosto de 1905; o casal Schutel não teve filhos carnais, porém sua dedicação aos semelhantes ficou indelevelmente marcada na história de Matão, uma vez que ambos jamais deixaram de atender aqueles que os procuravam.

Depois de curta enfermidade, Caírbar Schutel faleceu em Matão, no dia 30 de janeiro de 1938. Durante e após suas exéquias, inúmeras pessoas de Matão, das cercanias, do Estado de São Paulo e de diversas regiões do Brasil prestaram-lhe comovente tributo de gratidão e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido, tendo certamente cumprido a sua missão.

Aliás, o prestigioso jornal 'A Comarca', de Matão, em sua edição de 6 de fevereiro de 1938, consignou o seguinte: "É absolutamente impossível em Matão falar-se quer da nossa história passada, quer da nossa história hodierna sem mencionar Caírbar Schutel. Caírbar Schutel foi, para Matão, um dínamo propulsor do seu progresso, um arauto dedicado e eloqüente das suas aspirações de cidade nascente. Mais do que isso foi o homem que, como farmacêutico, acorria com o seu saber e com a sua caridade à cabeceira dos doentes, naqueles tempos em que o médico era ainda nos sertões que beiravam o 'Rumo', uma autêntica 'avis rara'.

"Militando na política por algum tempo, a sua atuação pode ser traduzida no curto parágrafo que abaixo transcrevemos, fragmento de um discurso pronunciado em 1923, na Câmara Estadual, pelo Deputado Dr. Hilário Freire, quando aquele ilustre parlamentar apresentou o projeto da criação da Comarca de Matão. Ei-lo: 'Em 1898, o operoso, humanitário e patriótico cidadão Sr. Caírbar de Souza Schutel, empregando todo o largo prestígio político de que gozava, e comprando com os seus próprios recursos o prédio para instalação da Câmara, conseguiu, por intermédio de um projeto apresentado e defendido pelo Dr. Francisco de Toledo Malta, de saudosa memória, a criação do município de Matão'.

Dizem algumas comunicações mediúnicas que o Espírito Caírbar Schutel está, no mundo espiritual, encarregado pela divulgação do Espiritismo na Terra; sendo confirmada tal informação, essa nobre tarefa está muito dirigida, porque o movimento espírita deve muito ao querido "Bandeirante do Espiritismo", assim como à sua digníssima esposa Dª. Maria Elvira da Silva Schutel, pois, como diz a sabedoria popular, ao lado de um grande homem há sempre uma grande mulher!

AUTA DE SOUZA


Nasceu em Macaíba, então Arraial, depois cidade do Rio Grande do Norte a 12 de setembro de 1876, era magrinha, calada, de pele clara, um moreno doce à vista como veludo ao tato. Era filha de ELOI CASTRICIANO DE SOUZA, desencarnado aos 38 anos de idade e de Dona HENRIQUETA RODRIGUES DE SOUZA, desencarnada aos 27 anos, ambos tuberculosos. Antes de ter completado 3 anos ficou órfã de mãe e aos 4 anos de pai. A sua existência, na terra foi assinalada por sofrimentos acerbos. Muito cedo conheceu a orfandade e ainda menina, aos dez anos, assistiu a morte de seu querido irmão IRINEU LEÃO RODRIGUES DE SOUZA, vitimado pelo fogo produzido pela explosão de um lampião de querosene, na noite de 16 de fevereiro de 1887.

Auta de Souza e seus quatro irmãos foram criados em Recife no velho sobrado do Arraial, na grande chácara, pela avó materna Dona SILVINA MARIA DA CONCEIÇÃO DE PAULA RODRIGUES, vulgarmente chamada Dindinha e seu esposo FRANCISCO DE PAULA RODRIGUES, que desencarnou quando Auta tinha 6 anos.

Antes dos 12 anos, foi matriculada no Colégio São Vicente de Paulo, no bairro da Estância, onde recebeu carinhosa acolhida por parte das religiosas francesas que o dirigiam e lhe ofereceram primorosa educação: Literatura, Inglês, Música, Desenho e aprendeu a dominar também o Francês, o que lhe permitiu ler no original: Lamartine, Victor Hugo, Chateubriand, Fénelon.

De 1888 a 1890, a jovem Auta estuda, recita, verseja, ajuda as irmãs do Colégio, aprimora a beleza de sua fé, na leitura constante do Evangelho.

Aos 14 anos, ainda no Educandário Estância, em 1890, manifestaram-se os primeiros sintomas da enfermidade que lhe roubou, em plena juventude, o viço e foi a causa de sua morte, ocorrida na madrugada de 7 de fevereiro de 1901 - Quinta-feira à uma hora e quinze minutos, na cidade de Natal, exatamente com 24 anos, 4 meses e 26 dias de idade. Os médicos nada puderam fazer e Dindinha retornou com todos para a terra Norte-Rio Grandense. Ei-los todos em Macaíba. Foi sepultada no cemitério do Alecrim e em 1906, seus restos mortais foram transladados para o jazigo da família, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba, sua terra natal.

O forte sentimento religioso e mesmo a doença não impediram de ter uma vida absolutamente normal em sociedade.

Era católica, mas não submissa ao clero. Ela não se macerou, não sarjou de cilícios a pele, não jejuou e jamais se enclastou. Era comunicativa, alegre, social. A religiosidade dela era profunda, sincera, medular, mas não ascética, mortificante, mística. Seu amor por Jesus Cristo, ao Anjo da Guarda, não a distanciaram de todos os sonhos das donzelas: Amor, lar, missão maternal. Com 16 anos, ao revelar o seu invulgar talento poético, enamorou-se do jovem Promotor Público de Macaíba, João Leopoldo da Silva Loureiro, com a duração apenas de um ano e poucos meses. Dotada de aguda sensibilidade e imaginação ardente dedicava ao namorado amor profundo, mas a tuberculose progredia e seus irmãos convenceram-na a renunciar. A separação foi cruel, mas apenas para Auta. O Promotor não demonstrou a menor reação.... É verdade que gostava de ouvi-la nas festas caseiras a declamar com sua belíssima voz envolvente, aveludada e com ela dançar quadrilhas, polcas e valsas, mas não era o homem indicado para amar uma alma tão delicada e sonhadora como Auta de Souza. Faltava-lhe o refinamento espiritual para perceber o sentimento que extravasava através dos olhos meigos da grande Poetisa.

Essa sucessão de golpes dolorosos, marcou profundamente sua alma de mulher, caracterizada por uma pureza cristalina, uma fé ardente e um profundo sentimento de compaixão pelos humildes, cuja miséria tanto a comovia. Era vista lendo para as crianças pobres, para humildes mulheres do povo ou velhos escravos, as páginas simples e ingênuas da "História de Carlos Mágno", brochura que corria os sertões, escrita ao gosto popular da época.

A orfandade da Poetisa ainda criança, o desencarne trágico de seu irmão, a moléstia contagiosa e a frustração no amor, esses quatro fatores amalgamados à forte religiosidade de Auta, levaram-na a compor uma obra poética singular na História da Literatura Brasileira "Horto", seu único livro, é um cântico de dor, mas, também, de fé cristã. A primeira edição do Horto saiu do prelo em 20 de Junho de 1900.
O sofrimento veio burilar a sua inata sensibilidade, que transbordou em versos comovidos e ternos, ora ardentes, ora tristes, lavrados à sombra da enfermidade, no cenário desolador do sertão de sua terra.

Em 14 de novembro de 1936, houve a instalação da Academia Norte-Rio Grandense de Letras, com a poltrona XX, dedicada a Auta de Souza.

Livre do corpo, totalmente desgastado pela enfermidade, Auta de Souza, irradiando luz própria, lúcida e gloriosa alçou vôo em direção à Espiritualidade Maior. Mas a compaixão que sempre sentira pêlos sofredores fez com que a poetisa em companhia de outros Espíritos caridosos, visitasse, constantemente a crosta da terra. Foi através de Chico Xavier, que ela, pela primeira vez revelou sua identidade, transmitindo suas poesias enfeixadas em 1932, na primeira edição do "PARNASO DE ALÉM TÚMULO", lançado pela Federação Espírita Brasileira.

Em sua existência física, Auta de Souza foi a AVE CATIVA que cantou seu anseio de liberdade; o coração resignado que buscou no Cristo o consolo das bem-aventuranças prometidas aos aflitos da terra. Além do túmulo, é o pássaro liberto e feliz que, tornado ao ninho dos antigos infortúnios, vem trazer aos homens a mensagem de bondade e esperança, o apelo à FÉ e a CARIDADE, indicando o rumo certo para a conquista da verdadeira vida.

A Campanha de Fraternidade Auta de Souza, idealizada pelo companheiro Nympho de Paula Corrêa e aprovada em 3 de fevereiro de 1953, pelo Departamento de Assistência Social da Federação Espírita do Estado de São Paulo, então dirigido pelo saudoso confrade José Gonçalves Pereira, é uma bela homenagem à nossa querida Poetisa, AUTA DE SOUZA.